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13 Novembro 2009

Um pouco sobre Heidegger...


O mistério do ser foi o grande desafio para a filosofia de Martin Heidegger. Nascido na Alemanha, em setembro de 1889, formou-se na Universidade de Freiburg, em meio a influência de diversos intelectuais, dentre os quais o “Pai da Fenomenologia”, Edmund Husserl, seu grande mestre, do qual também foi assistente. Em 1927, publica sua obra mais famosa Ser e Tempo (Zein und Zeit), que o projetou internacionalmente, abordando principalmente a temática do Ser. Em 1933, filiou-se ao partido nazista e passou dez meses como reitor nacional-socialista em Freiburg, onde suas radicais idéias de renovação da academia alemã culminaram em sua demissão. Após o episódio, sentindo-se frustrado com a política, isolou-se do convívio social. Morreu em 1976 deixando milhares de páginas escritas, sempre evidenciando mais as perguntas do que respostas.
O método fenomenológico é evidente na problemática de Heidegger, que parte do conhecimento imediato do que se apresenta à consciência (o ente) para atingir uma problemática mais profunda (o ser). Como ponto de partida, o filosofar deve partir da existência humana (chamado por Heidegger de “Dasein”, traduzido ao português por ser-aí) e suas relações no tempo para chegar à questão mais profunda de todas: O que é o ser?
Na análise do Dasein, o filósofo chega a alguns conceitos fundamentais da existência: O homem existe em um mundo factual, imerso em condições históricas, sociais, ambientais e econômicas; A partir disto, o homem busca projetar-se além de si, ou seja, sempre constrói planos de ir além de sua condição presente; Contudo, o eu que fundamenta o projeto, entra inevitavelmente em decadência (ruína) ao se chocar com os outros, dissolvendo-se ante o impessoal do outro.
O modo de ser do homem é fazer da vida um projeto; porém, tal projeto sempre se acha aberto a diversas possibilidades, o que gera no homem a angústia. A angústia é entendida por Heidegger como “manifestação do nada”, pois que sempre nos angustiamos diante de algo indefinido. Para evitar essa angústia inafastável, o homem acaba por mergulhar em uma fuga no impessoal: A existência inautêntica. Essa fuga é caracterizada pelo afastamento e anulação de si mesmo em relação ao outro.
Por outro lado, há a existência autêntica que é aquela que se enfrenta e se reconstrói a partir do nada. Mas de que nada estamos falando aqui? Como o existir se finda na morte (vez que na perspectiva heideggeriana, não há esperança de vida pós-morte), então depreende-se que o limite do homem é dado pelo tempo, pelo prazo de vida de cada um. A morte é esse nada que revela nossa finitude como seres humanos. Não há céu, nem Deus, nem esperança para nos acolher: o ser resta entregue a si mesmo, ao nada que sempre foi. O morrer é a consolidação do nada como definição existencial.
Ser autêntico é se afirmar diante dos projetos futuros, considerando tudo isso. A existência, na sua forma mais autêntica, só pode se dar dentro do tempo, interligando o passado e o presente (o que me tornei) aos projetos futuros (o que poderei ser), sempre tendo sob horizonte a idéia da morte e a consolidação do momento.
Heidegger busca assim uma síntese entre o existencialismo de Kierkegaard e a fenomenologia de Husserl, desconstruindo em certa medida os dualismos artificiais típicos da metafísica clássica como, por exemplo, “ser versus aparecer” e “corpo versus alma”, enquanto conserva a irredutível independência entre "eu" e o "próximo" e indo ao encontro da verdadeira filosofia, aquela que transcende o mundo do mero ente e busca no mistério da metafísica as respostas sobre o ser.

O autor Felipe Camargo é graduando em Filosofia pela USC –Bauru, sob a orientação do prof. Silvio Motta Maximino (JORNAL DA CIDADE - 9/11/2009 - Bauru)

20 Setembro 2009

A onda, os microfascismos e a vontade apocalíptica.


muito tempo que um filme não me impressionava tanto como o alemão “A onda” (Die Welle, 2008), baseado na história verdadeira de Ron Jones, um professor de história contemporânea de uma escola secundária da Califórnia (diferentemente do filme, que ocorre na Alemanha). Em uma aula de teoria política, a partir do desinteresse dos alunos, o mestre propôs uma aula embasada nos pressupostos dos regimes fascistas que culminou em uma reação impressionante dos alunos, que inicialmente eram trinta e em apenas quatro dias atingiram a impressionante quantidade de duzentos discentes. Não vou contar mais detalhes da história para não revelar o filme (que estará disponível para download). Mas o que me perturbou foi o aspecto psicológico das massas na construção fascismo. Adolescentes apáticos em relação à política, de repente tornam-se ativistas proliferando ódio e ideais e reafirmando a disciplina, o espírito de grupo e a supremacia de valores.

O psicanalista alemão Wilhelm Reich, em seu livro psicologia de massa do fascismo, prioriza a idéia de que o fascismo não foi algo ideológico imposto uma massa alienada, mas sim desejado pela mesma. Ao ler a magna biografia que Safranski faz de Heidegger, percebe-se o quão esperançoso foi o Nacional-socialismo e a figura de Adolf Hitler para o povo alemão, como diz o próprio Heidegger: No começo doa anos 30 às diferenças de classe em nosso povo tinham-se tornado intoleráveis para todos os alemães com senso de responsabilidade social, bem como o pesado ônus econômico da Alemanha devido ao Tratado de Versailles. No ano de 1932 havia 7 milhões de desempregados que, com suas famílias, só podiam esperar pobreza e necessidade. A perturbação devido a essas condições, que a atual geração nem consegue mais imaginar, também atingiu as universidade [...] Tais enganos já aconteceram com homens maiores do que eu: Hegel viu em Napoleão o espírito do mundo e Hölderlin o viu como o príncipe da festa a qual os deuses e Cristo foram convidados.

O mais impressionante é que o fascismo, como disse Foucault, não existe apenas no âmbito ditatorial e centralizado de Mussolini e Hitler, mas também em todos nós, que assombra nosso espírito e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, deseja esta coisa mesma que nos domina e nos explora (Uma Introdução à vida não-fascista). O fascismo não é algo externo que se restringe aos alemães, tanto que a experiência do professor Ron Jones, foi desenvolvida em uma escola dos EUA, onde o meio cultural divergia totalmente daquele encontrado na Alemanha cerca de 30 anos antes.

Deleuze e Guattari em seu rizomático livro Mil Platôs, salientam a idéia de Foucault: “Mas o fascismo é inseparável de focos moleculares, que pululam e saltam de um ponto a outro, em interação, antes de ressoarem todos juntos no Estado nacional-socialista. Fascismo rural e fascismo de cidade ou de bairro, fascismo jovem e fascismo ex-combatente, fascismo de esquerda e de direita, de casal, de família, de escola ou de repartição: cada fascismo se define por um microburaco negro, que vale por si mesmo e comunica com os outros, antes de ressoar num grande buraco negro central generalizado”.

O fascismo não é algo macro e sim molecular, não centralizado e sim disseminado, metástase cancerígena, não existem fascismos e sim disseminações fascistas em micro-escalas. O nazismo foi a exponenciação da subjetividade dos microfascimos, que não tem fronteira e ainda hoje ganham campo em cima do vazio existencial e da vida niilista da contemporaneidade. O vazio e a angústia do homem contemporâneo são campos abertos para a disseminação e busca de um padrão hegemônico, lacunas que foram aproveitadas pelos governos ditatoriais e culminaram nas grandes desgraças vistas no século passado.

O final do filme, a partir desse discurso torna-se previsível. No facismo impera a vontade de destruição: É curioso como, desde o início, os nazistas anunciavam para a Alemanha o que traziam: núpcias e morte ao mesmo tempo, inclusive a sua própria morte e a dos alemães. Eles pensavam que pereceriam, mas que seu empreendimento seria de toda maneira recomeçado: a Europa, o mundo, o sistema planetário. E as pessoas gritavam bravo, não porque não compreendiam, mas porque queriam esta morte que passava pela dos outros. É como uma vontade de arriscar tudo a cada vez, de apostar a morte dos outros contra a sua (Mil Platôs 3). A metáfora da metástase ganha mais força, e o regime suícida do fascismo anula-se : O telegrama 71 — Se a guerra está perdida, que pereça a nação — no qual Hitler decide somar seus esforços aos de seus inimigos para consumar a destruição de seu próprio povo, aniquilando os últimos recursos de seu habitat, reservas civis de toda natureza (água potável, carburantes, víveres, etc.) é o desfecho normal...(Idem).


Ficou interessado? Se quiser assitir ao filme, faça o Download!


Para saber mais:

SAFRANSKI , R Heidegger: Um mestre na Alemanha entre o bem e o mal

DELEUZE E GUATTARI, O Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrênia

____________________ Mil Platôs

FOUCAULT, M. Introdução à uma vida não fascista

REICH, W. Psicologia de massa do Fascismo





11 Setembro 2009

A imortalidade e o fim do humano


“Todos almejamos a imortalidade, é nossa fantasia final”. Essa premissa é levantada pelo sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard no primeiro capítulo de seu livro “A ilusão vital”. O pensador, como um bom pós-moderno, critica pesadamente os devaneios do homem contemporâneo e a pretensão de tornar-se Deus.
No início de seu livro, o escritor de Simulacros e simulações, salienta a idéia de que a clonagem em uma perspectiva analítico-reflexiva não passa de um profundo desejo humano de alcançar a imortalidade e romper as barreiras naturais da vida. O homem pode então se desenvolver como uma célula, criando-se a partir de si próprio e disseminando sua existência. Contudo, quando a célula começa a se duplicar incessantemente esquece a morte, produzindo milhares de cópias de si própria ocasionando o aparecimento de tumores, que podem levar o organismo a morte. Analogamente, o homem ao tentar se duplicar porta-se como a célula que teleologicamente atinge sua destruição.
Para Baudrillard, os primeiros seres vivos eram imortais, pois copiavam-se incessantemente eliminando a alteridade e a diferença, ou seja, até então a homogeneidade reinava na atmosfera terrestre. Contudo, aconteceu a autêntica revolução sexual na história: A união da dualidade de seres iniciando novos seres, o que em outras palavras quer dizer o fim da unicidade homogênea. A natureza achará na morte e na união de dois seres diferentes o caminho para um mundo diversificado e aberto à alteridade.
Se a heterogeneidade é o caminho para a criação e evolução, porque o homem sonha com clones homogêneos? Jean Baudrillard tenta responder essa questão com um argumento freudiano, a pulsão pela destruição (Thanathos). O homem não se agüenta como o centro do Universo e procura através da artificialidade uma volta ao passado homogêneo, a convicção em se duplicar disfarça a pulsão de aniquilação do próprio ser humano, esta que se torna evidente a partir do aparecimento de vírus e bactérias super-resistentes.
O pensamento baudrillardiano em relação ao homem que procura seu duplo, remete a história que Saramago cria em seu belo livro O homem duplicado, onde um homem ao encontrar um ator idêntico a si próprio, começa a viver um inferno existencial, culminando em situações destrutivas e escatológicas.
O homem contemporâneo vê na técnica uma forma de superar e abolir a humanidade, não no sentido proposto por Nietzsche, que procura uma afirmação, mas no sentido negativo, de fugir e destruir os preceitos demasiadamente humanos. Em outras palavras, o homem se oculta em um abismo técnico e esterilizado pela ciência, tanto que a definição do homem na atualidade não são os valores axiológicos e ontológicos de outrora, mas sim a estrutura genética.*
As experiências com a reprodução homogênea de seres humanos não são mais do que reflexos de uma monocultura e de um monopensamento consolidados principalmente no século XX, onde o diferente torna-se nocivo e prejudicial e tem de ser abolido de qualquer forma. A clonagem cultural e mental, instaurada pelos tentáculos do sistema (escola, mass media, prisões, hospitais, etc.) antecedem a clonagem biológica.
Na perspectiva de Jean Baudrillard, é preciso se abrir para o diferente e rever a situação humana, não por uma questão de bem ou mal, mas sim por uma questão de sobrevivência da espécie humana, pois a mesma já se encontra em metástase.

*Baudrillard ironiza a definição genética:"Compartilhamos 98% dos genes com gorilas e 90% deles com ratos. Baseado nessa herança comum, que direitos devem reverter para gorilas e ratos?"

06 Setembro 2009

O conhecimento e suas perspectivas



Antes de qualquer coisa, precisamos dar uma definição ao que é o conhecimento: Utilizando as palavras da Maria Aranha: “O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido.” E essa relação, durante toda a história da Filosofia, foi bastante discutida e trouxe muitos problemas, especialmente na contemporaneidade.

Existem basicamente 5 correntes que afirmam a possibilidade do conhecimento, e segundo a definição de Hessen; são elas:
  • Dogmatismo: Não existe um problema no conhecimento, pois o sujeito pode claramente conhecer o objeto exatamente da forma que ele é. Os principais representantes dessa corrente são os filósofos pré-socráticos;
  • Ceticismo: Oposto do dogmatismo, é impossível para o sujeito conhecer o objeto, logo devemos suspender completamente nosso juízo (epoché). Pode ser divido em ceticismo lógico, metafísica, ético ou religioso, metódico e sistemático. Seu principal representante e fundador é Pirro de Ellis (360-270 a.C.);
  • Subjetivismo e relativismo: Para essas correntes, a verdade existe, mas não de forma universal. Enquanto que o subjetivismo defende que ela dependerá do sujeito, o relativismo dirá que ela também dependerá de fatores externos, como o contexto temporal e espacial em que o sujeito está inserido. Os grandes representantes deste pensamento são os sofistas;
  • Pragmatismo: Para os pragmáticos, é verdadeiro aquilo que é útil, pois para eles o homem é um ser prático, ativo e dotado de vontade e, portanto, o sentido do conhecimento humano estaria ligado à prática. Teve origem nos Estados Unidos, sendo seu fundador William James (1842-1910).
  • Criticismo: Confia na possibilidade de conhecimento, como os dogmáticos, mas acredita que é preciso, antes de tudo, colocar qualquer tipo de afirmação à prova da razão. O principal teórico desta corrente é Immanuel Kant (1724-1804).
Certamente, o relativismo e o subjetivismo são as correntes mais aceitas pelos filósofos contemporâneos. Como afirma Marilena Chauí, o relativo, o incerto torna-se uma das características da pós-modernidade quando “Freud põe em dúvida o poderio da consciência, (...) os antropólogos descrevem a pluralidade cultural regida por necessidades internas de cada cultura (...) e Marx revela o poderio da ideologia e também os imperativos econômicos”.

Todos os grandes pensadores de nossa época, como Foucault, Deleuze, Derrida, Nietzsche, Husserl, dentre outros, irão defender esse conceito, que é o que rege ciências como a Sociologia, a Antropologia e a Pedagogia.

Outro ponto dos contemporâneos é a ausência da dicotomia sujeito-objeto na questão do conhecimento. Este ponto já é visto como superado, e hoje fala-se de atores dentro da questão do conhecimento, o que tira a limitação de ter de circular entre apenas dois atores (sujeito e objeto), enquanto na verdade existem muitos, como o contexto histórico, o laboratório, a Academia de Ciências, etc. Com isso, o conhecimento, quer seja dentro da ciência, da educação, da filosofia, ou de qualquer outro âmbito, toma um prisma histórico, estando aberto à todas as caracteristicas do contexto que o circunda, eliminando definitivamente qualquer ideia de absolutismo dentro das criações e perspectivas humanas.

25 Agosto 2009

Verdade e Conhecimento


"Por algum motivo, um dia alguém decidiu que havia algo que era, e que não podia ser outra coisa. E essa pessoa quis conhecer o que de fato era essa coisa, pois não podia viver em um mundo que não soubesse o que era. Mas outra pessoa, que não gostava muito da primeira, disse que nunca se poderia chegar a saber o que as coisas realmente são, porque não temos como ter certeza de que todas as pessoas percebem o mundo da mesma forma e, muito menos, se percebe da forma com que ele é. E então, desde esse dia, alguns buscam a verdade, e outras dizem que essa busca é vã, e nunca teremos certeza de nada..."

Claro que não foi assim que ocorreu, mas essa histórinha serve pra ilustrar como é que a verdade permeia o imaginário humano. Desde que o primeiro homem se questionou acerca do mundo e das coisas que nele estão, que os conceitos de verdade e mentira fazem parte de nossas vidas. E, mesmo que a idéia de verdade absoluta já não esteja mais em voga nos meios acadêmicos, ainda existem esforços para salvar o termo, nem mesmo que seja para ele designar uma verdade momentânea, ou uma meia verdade.

Num primeiro momento, a verdade era tida como uma correspondência daquilo que eu vejo com aquilo que eu penso. Ou seja, o que eu acho da coisa deve ser aquilo que os meus sentidos captam dela. É o que conhecemos como verdade por correspondência. Assim, o sujeito gira em torno do objeto a ser conhecido, e é completamente passivo à ele. É a concepção tida por Aristóteles, ao dizer que as dez categorias que permitem ao homem conhecer encontram-se no objeto cognoscível. Esta idéia permaneceu durante a Idade Média, e até alguns momento da Idade Moderna.

No entando, quando Kant postula que as estruturas a priori que proporcionam o conhecimento das coisas estão no sujeito cognoscente, e não no objeto em si, há uma mudança total na perspectiva acerca do que vem a ser o conhecimento e, consequentemente, no que vem a ser a verdade. Toda a construção da realidade passa a ser subjetiva, e não podemos alcançar nunca a realidade em si mesma, pois estamos limitados por nossas próprias categorias a priori. Em outras palavras, nossa própria capacidade de conhecimento dos fenômenos nos impede de conhecer a "verdade em si" do mundo. Com isso, o conhecimento humano só passa a ter sentido dentro de seu próprio contexto.

Com essa subjetividade, que dará nascimento ao relativismo, houve uma grande crise no conhecimento e na idéia de verdade, que até hoje tentamos superar. Com o fim da verdade por correspondência, ou seja, da verdade absoluta, inúmeros pensadores correram para tentar formular alguma teoria que pudesse salvar este conceito tão importante pra vida humana. Assim, nascem outras duas concepções de verdade: a pragmática e a coerencial.

A verdade pragmática defende que um conhecimento pode ser dito como verdadeiro se permitir com que a sociedade e os indivíduos possam viver, evoluir e desenvolver projetos. O que funcionar, é verdadeiro. O que falhar, é falso. A verdade, então, passa a ser uma construção social dos sujeitos e da sociedade.

Já a verdade coerencial diz que é verdadeiro aquilo que é coerente com nossas representações da realidade. É neste tipo de verdade, utilizada na ciência, que podemos dizer que algo foi "explicado": através de um discurso coerente, ligamos as representações feitas de um fenômeno com as representações que já se possui de outros fenômenos.

Essas duas últimas idéias de verdade são as mais utilizadas hoje em dia, em todas as correntes de pensamento que não aceitam mais a existência de verdades absolutas. Nosso conhecimento tornou-se relativo e subjetivo, e ainda tentamos nos adaptar a isso. A verdade absoluta ainda nos rodeia, nos persegue... Mas aos poucos, talvez, nos livraremos desta concepção e passaremos a encarar a nossa limitação, nos vendo como aquilo que somos: um mero segundo na história do Universo.

20 Agosto 2009

Fobias estranhas




Sempre fui muito curioso em relação ao comportamneto perante as diversas psicopatologias existentes, e as fobias podem ser consideradas as mais curiosas dessas manifestações humanas. Segue uma lista de algumas fobias um tanto quanto estranhas:

Ablepsifobia - medo de ficar cego
Ablutofobia - medo de tomar banho (no frio pode ser tolerada!) .
Acerofobia - medo a produtos ácidos.
Afobia - medo da falta de fobias (Essa parece piada!)
Aletrorofobia - medo de galinhas
Amnesifobia - medo de perder a memória.
Autofobia - medo de si mesmo ou de ficar sozinho (Isto que é ser auto-confiante)
Automatonofobia - medo de bonecos de ventríloquo, criaturas animatrônicas, estátuas de cera (qualquer coisa que represente falsamente um ser sensível)
Biofobia - medo da vida (Que motivos um cara com Biofobia tem pra ficar vivo?)
Cinetofobia ou cinesofobia - medo de movimento (um cara desse só sente seguro quando morre!)
Cronofobia - medo do tempo
Coprofobia - medo de fezes ( Evite olhar para a privada, principalmente em banheiros públicos!)
Cristãofobia, cristofobia ou cristianofobia - medo dos cristãos (Esse eu tenho!)
Dendrofobia - medo de árvores ( O que faz uma pessoa ter medo de árvores?)
Dextrofobia - medo de objetos do lado direito do corpo
Epistemofobia - medo do conhecimento (esse é o cara que descobriu o segredo do Universo)
Ergofobia - medo do trabalho (Sou um exemplo crônico!)
Eretofobia - medo mórbido de sentir dor durante relações sexuais
Estruminofobia - medo de morrer defecando ( tire suas próprias conclusões )
Filosofobia - medo de filosofia (Depois que conheci a biografia de diversos filósofos comecei a desenvolver essa psicopatologia!)
Fobofobia - medo de fobias
Hipopotomonstrosesquipedaliofobia - medo de palavras grandes (Imagine um cara com essa fobia ouvindo o diagnóstico do Psiquiatra)
Ideofobia - medo de idéias (Isso caracteriza grande parte do sistema de ensino)
Logofobia - medo de palavras
Mitofobia - medo de mitos, histórias ou declarações falsas (Algumas passagens da Bíblia são de tremer!)
Narigofobia - medo de narizes
Octofobia - medo do numero 8
Pedofobia - medo das crianças. (depois que comecei a dar aula desenvolvi uma inclinação a essa fobia)
Ripofobia - medo de defecar (como alguém pode ter medo de algo tão sublime?)
Satanofobia - medo de satã (demônio) (A chave do sucesso de várias religiões)
Sexoafobia - medo de fazer sexo (vide Emmanuel Kant e Isaac Newton)
Sociofobia - medo da sociedade ou de pessoas em geral (Outra fobia que desenvolvi)
Uranusfobia - medo do planeta Urano (Qual o motivo, razão ou circunstância que leva a pessoa a ter medo de um planeta que se situa a mais de um bilhão de km?!)

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_fobias

17 Agosto 2009

Conceitos importantes dentro do ateísmo

Aproveitando a sugestão do Alexo, iniciarei uma série de posts para tratar de algumas questões dentro do ateísmo. Não procurarei fazer uma apologia direta ao ateísmo, apesar de que sua defesa certamente aparecerá nas entrelinhas, visto que sou atéia e não há imparcialidade em nada do que fazemos.

Nós próximos posts tratarei de questões como: verdade e conhecimento, fênomeno religioso, fé, idéia de deus, ciência e ateísmo. Não necessariamente nessa mesma ordem.

Para começar, gostaria primeiro de dar uma conceituação de duas diferentes formas de ateísmo. Entendendo que, por definição, ateu é aquele que não acredita em qualquer tipo de divindade, dividisse-os em dois grupos:

Ateu Agnóstico: Não acredita na possibilidade de conhecer qualquer tipo de divindade, nenhum tipo de prova contundente a favor ou contra e, portanto, toma como pressuposto que deuses muito provavelmente não existem. Não há qualquer sustentação de certezas. Seria o que John Stuart-Mill definiu como "ateísmo fraco".

Ateu Gnóstico: Acredita que não há qualquer tipo de divindade, e que esse é um fato absolutamente cognoscível, normalmente pelas hard sciences (física, biologia e química) e também pelas soft sciences (filosofia, psicologia, sociologia, antropologia, etc). Há a certeza de que não exista qualquer tipo de deuses. É o que John Stuart-Mill definou como "ateísmo forte".

Pode ser um pouco complicado entender essas diferenças, mas uma frase pode ajudar a esclarecer os conceitos: ausência de crença (ateu agnóstico) não é crença de ausência (ateu gnóstico). Ateísmo e agnosticismo também não são termos excludentes, visto que o segundo está ligado à questão do conhecimento, e não necessariamente religiosa.

Assim, logo de início, vemos que não há um padrão de ateu, principalmente porque não existem dogmas dentro do ateísmo fora, é claro, a descrença na divindade, e a grande maioria alcança sua descrença de forma autônoma, sem imposições alheias. Por isso mesmo não quero fazer apologias, visto que não sou porta voz de nada além de mim mesma. Procurarei apenas levantar algumas questões que cerceiam o ateísmo, com as quais, inclusive, eu me debati durante muito tempo e que continuo refletindo sempre que posso.

Antes de ir, um vídeo pra vocês verem:



06 Agosto 2009

A gripe, o porco e a tragicomédia humana.


Estado de pânico! A hipocondria se dissemina assustadoramente, as pessoas com medo não saem mais nas ruas, as que se aventuram são taxadas como corajosas e se defendem energicamente com super máscaras e um pote de álcool em gel para desinfetar tudo aquilo que é alheio, os hospitais lotados não possuem mais leitos para seus doentes e a mídia faz atualização a cada minuto sobre o número de mortes que se expande assustadoramente. Não descrevo aqui um trecho do livro de Albert Camus e nem a sinopse de algum escatológico filme de Holywood e sim a nova protagonista do momento: A gripe do porquinho.

O vírus H1N1, causador da gripe, é comum em porcos em todos os cantos do mundo, se caracteriza principalmente pelo enfraquecimento do sistema imunológico de seu hospedeiro, abrindo as portas para infecções mais graves, como a pneumonia. O vírus a princípio, não era contagioso entre seres humanos, porém, a plasticidade do micro-organismos virais é assustadoramente fantástica e através de mutações, passou a ser feita de pessoa para a pessoa. A gripe só no Brasil, matou mais de 150 pessoas e existem milhares (se não milhões) que estão com suspeitas, enfim, nada que seja inédito aos noticiários e sites.

Mas eu como um bom observador, tentei olhar um pouco além do vírus e algumas coisas me surpreenderam. Primeiramente fiquei abismado com a propagação do vírus em escala global, em menos de um mês se espalhou pelos quatro cantos do planeta, isso sem contar as gigantescas operações criadas para barrar o vírus na fronteira dos países com risco maior de contaminação. Apesar de tanto alarde, não foi possível conter esse minúsculo ser, que provoca mais mortes do que qualquer outro ser vivo no planeta.

Outra coisa que me deixou assustado foi a vulnerabilidade humana, por mais que a ciência “evolua” ¹, ainda estamos a mercê das contingências da natureza. O homem não consegue dar conta da enérgica mutabilidade de vírus e bactérias, por isso corre muito atrás desses micro seres, ou seja, a desvantagem em relação a vírus destrutíveis pode ocasionar em números gigantescos de óbitos. ESTAMOS SERIAMENTE AMEAÇADOS.

O homem está extinguindo grande parte da macro vida do planeta, porém, em relação a micro organismos podemos dizer exatamente o contrário, pois esses se encontram cada vez mais resistentes aos medicamentos até então criados, e o encurtamento das fronteiras pode fazer com que uma pessoa contraia o vírus em Nova Iorque e o transmita no Zimbábue, o que faz a transmissão assumir formar gigantesca em pouca margem de tempo. E ainda pode ser pior, pois grande parte de vírus e bactérias são desconhecidos ², o que demandará muito tempo de pesquisa para uma possível solução do problema infectológico.

Não querendo ser pessimista, mas olhando sob esse prisma, isso nos parece extremamente assustador.

Será que o homem com sua vulnerabilidade ainda é o centro do Universo?



1 – Não gosto muito de utilizar essas palavras, mas empreguei-a no sentido de que a ciência hoje se mostra mais complexa.

2 – Segundo a revista Super Interessante, se colocarmos todos os seres vivos em uma balança, cerca de 80 por cento do peso total será correspondente a vírus e bactérias e grande parte desse montante ainda não foi conhecido pelo homem.

27 Julho 2009

O Lobo da Estepe



Desculpem a falta de postagem, mas eu estou provisariamente sem net em casa. O que é bom em certo aspecto, porque em um mês li 5 livros, escrevi 3 artigos, formatei 4 e-books e escrevi o capítulo do meu pretenso livro que estava parado há algum tempo.

Um dos livros que eu li, e que há tempos queria ler, foi O Lobo da Estepe, clássico do escritor alemão Herman Hesse. Apesar do final ser otimista demais pra mim, o livro como um todo é muito bom e vale o renome que tem. Aproveito pra transcrever aí embaixo uma passagem do livro, uma fala da Hermínia para o Harry, que me chamou muito a atenção e diz muito de como me sinto perante o mundo: "pretendia grandes feitos, mas descobri que o mundo não passa de um salão burguês". Espero que lhes façam refletir, como me fez. E, de preferência, leiam o livro todo.

"Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pode ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou mais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry? Não é esse o seu destino? [...] Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, uma exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, veneração pelos grandes poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote." (HESSE, 1975, p. 135-136).

HESSE, H. O Lobo da Estepe. 10 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

09 Julho 2009

Os Numeratis e a disseminação sutil do poder




Michel Foucault foi um dos grandes filósofos do século XX, em sua rica obra podemos destacar a preocupação de Foucault com o poder e sua força no campo de aplicação. Para ser mais preciso, no livro História da sexualidade: A vontade de saber é onde Foucault conceitua o poder contemporâneo ou o Biopoder. Como o nome já diz, é caracterizado pelo controle em relação à vida do indivíduo: Natalidade, sexualidade, etc. Mas o que mais me chamou a atenção nessa obra é um termo que o filósofo francês caracteriza o poder contemporâneo: A sutilidade.
Aprecio muito esse ponto de vista foucaultiano, principalmente após ler uma reportagem e um livro sobre a nova ciência de controle: A ciência dos Numeratis.
Como observei no último parágrafo, essa ciência tem como objetivo o controle social nos mais diversos campos (trabalho, Internet, política, consumo, saúde e até no amor). O método consiste em uma elaborada análise da vida do indivíduo, transformada em equações, traçando paralelos e previsões para guiar o comportamento de cada um.
Ilustrarei essa ciência com alguns exemplos:
• Trabalho: A IBM andou bisbilhotando a vida de cerca de 50 mil funcionários, e bem ao pé da letra. Currículos, projetos, anotações em agendas on line, e-mails e até idas ao banheiro foram transformados em gráficos e equações, cujo objetivo é comparar a produtividade a um funcionário virtual. Quem não se adequar aos padrões minuciosos estabelecidos ganhará certamente o olho da rua. E o pior é que diversas empresas mostram interesse no projeto.
• Internet: Sabe aqueles comentários que você deixa em Blogs e Fotologs pela Net? Podem estar na mira de supercomputadores que definem você pelos seus comentários e até pelo seu modo de escrita (o computador identifica naum ao invés de não, pode deduzir que uma pessoa jovem está nos teclados), através dessas técnicas, os numeratis visam descobrir suas opiniões sobre produtos com o fim de oferecer um produto bom e para a pessoa certa.
• Política: Nos EUA, os Numeratis desvendam a vida das pessoas para identificar a identificação partidária, na busca de mais votos. Filiação, bairro, profissão, valores e centenas de dados são computados. Joseph Gotbaum, um dos maiores especialistas na ciência dos números foi o grande responsável pelo marketing da campanha de Barack Obama rumo à presidência.
• Consumo: Através do registro de suas comprar, os mercados analisaram os produtos que mais consome e proporcionará promoções específicas para você.
• Amor – Através de cálculos referentes a hormônios predominantes nas pessoas, as mirabolantes equações proporcionam a combinação com o par perfeito. O MSN paquera já utiliza a tecnologia, faça o teste!
• Saúde – O monitoramento diário levará aos Numeratis todos seus movimentos na tentativa de prever um doença degenerativa, como o mal de Parkinson.
Apesar de ter alguns pontos positivos, como a prevenção de doenças, a ciência dos Numeratis vem salientar a sutilidade que o poder contemporâneo é exercido, somos comparados, calculados e vigiados, como máquinas na busca de um desempenho cada vez mais satisfatório e isso sem saber, ou simplesmente por desejar. O poder ganha um novo status, muito mais sutil que o Biopoder de Foucault, ele chega ao status de um tecnopoder, onde a tecnologia coisifica e padroniza o homem a mercê da ideologia consumista de nossa sociedade. Vivemos a beira da sociedade de controle que profetas como Orwell e Huxley já haviam previsto no passado. Só falta tais tecnologias de controle estarem nas mãos de um governo ditador, ai sim a merda federá de vez!
Como escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente.”

Leituras recomendadas:
Baker,S. Numerati. ARX
Foucault, M. História da sexualidade: A vontade de saber.