08 maio 2009

Os filósofos em Lost


Lost, a série de grande sucesso da rede americana ABC, tem muitos elementos baseados em teorias científicas e pensamentos filosóficos. Mas eles vão além: utilizam-se de nomes de cientistas e filósofos em seus personagens, de forma a dar pistas da personalidade ou função do mesmo de acordo com o pensamento ou área de atuação dessas figuras intelectuais de nosso mundo real. Aqui irei enumerar e expor alguns personagens que têm nomes de filósofos e, quando for possível, fazer uma correlação entre ambos.


John Locke


Lost: Johnathan “John” Locke, norte-americano, era paraplégico antes de cair na ilha. Desde então recuperou-se desta limitação física de forma misteriosa, o que parece confirmar a sua ligação especial com a ilha. Ele acaba fazendo uma espécie de oposição à liderança de Jack, e se “une” a Ben por motivos de interesse pessoal. Ao final da 4ª temporada, descobrimos que ele morre enquanto tenta levar os Oceanic 6 de volta à ilha. Mas muitos mistérios ainda rondam a personagem.

Filosofia: John Locke é um filósofo inglês do século XVII. Ele é pai do liberalismo e têm grande influência na formação da democracia moderna. Para ele todos os homens, em seu estado natural, têm iguais condições para punir os transgressores, mas acabam criando o Estado para que a punição seja mais justa. Na questão voltada ao conhecimento, ele defende a idéia da Tabula Rasa, onde as pessoas nascem sem saber absolutamente nada, e todo o seu conhecimento é adquirido através do meio em que vivem. Inclusive escreveu um livro sobre como as crianças devem ser educadas (Alguns Pensamentos Sobre Educação), onde defende que elas devem ser tratadas como adultos desde pequenas, e não devem nunca ser mimadas, nem ouvir histórias fantasiosas, mas sim desenvolverem um senso de sociedade de forma prática.

Correlação: Assim, como o filósofo, o Lock de Lost defende, no começo, uma igualdade entre os sobreviventes na ilha, e esboça um grupo separatista daqueles liderados por Jack. A idéia de educação do filósofo John Locke também aparece na personagem da série na parte educacional, nos conflitos entre Michael e Walt. Além disso, Tabula Rasa é o nome do terceiro episódio da primeira temporada, que tem a personagem Kate como centro da história.

Curiosidade: Nos últimos episódios da 4ª temporada, John Locke aparece utilizando o pseudônimo de Jeremy Bentham, que também foi um filósofo inglês, porém do século XIX. Seguia a idéia do utilitarismo egoísta (que defende que é bom e ético aquilo que é útil ao indivíduo), e ficou famoso por desenvolver o panoptismo, princípio que corresponde à observação total do indivíduo, eliminando-lhe a sua liberdade. Como Locke, personagem de Lost, utiliza o nome de Bentham enquanto tenta levar os Oceanic 6 de volta à ilha, podemos ver esta idéia do panoptismo presente.





David Hume


Lost: Desmond David Hume é um escocês que já estava na ilha antes do avião da Oceanic Arilines cair. Ele morava sozinho na estação Cisne antes de ser descoberto por Jack, Kate e Locke. Foi parar lá após se perder durante uma regata ao redor do mundo. Se junta aos sobreviventes do vôo até ser resgatado por Penelope Widmore, sua namorada, juntamente com os Oceanic 6 e Frank Lapidus. Antes de conhecer Penelope foi monge, e depois militar. Ele é o personagem que está mais ligado com o fator temporalidade: num primeiro momento consegue prever o futuro, e em outro volta ao passado. Não sabemos o que acontece com ele após o resgate.

Filosofia: David Hume é um filósofo escocês do século XVIII. Sua filosofia disserta bastante sobre a questão do conhecimento humano. Ele é determinista, ou seja, acredita que tudo que acontece está pré-determinado por um acaso onde, como numa corrente, um acontecimento influi no outro e, portanto, não há livre-arbítrio. Era a favor do suicídio e achava que a moralidade não provinha da razão, mas sim dos sentimentos. Cem anos antes de Darwin, ele já falava sobre o conceito de seleção natural.

Correlação: É realmente muito difícil fazer uma correlação entre ambos. Pra começar, o Hume filósofo era ateu, enquanto que o personagem de Lost é religioso e ex-monge. O filósofo defende o determinismo, enquanto que o personagem consegue prever o futuro e muda-lo, salvando Charlie da morte várias vezes. É claro que, no final, não há escolha para o Charlie senão morrer, ele não pode escapar do destino. Mas o fato de Desmond ter podido salvá-lo algumas vezes já elimina a idéia do determinismo, a não ser que sempre estivesse previsto que ele o salvaria todas aquelas vezes. Um dos principais fatores que ligam ambos é, provavelmente, o Problema da Indução, em que o filósofo questiona o motivo de induzirmos que, porque fizemos uma coisa do mesmo modo e ela todas as vezes deu o mesmo resultado, logo ela SEMPRE dará o mesmo resultado. É exatamente o mesmo questionamento que Desmond fica fazendo a si mesmo ao apertar os botões da escotilha durante a segunda temporada da série.


Thomas Carlyle


Lost: Boone Carlyle é um californiano sobrevivente do vôo 815 da Oceanic Airlines. Irmão de Shannon Rutherford, outra sobrevivente, foi o primeiro personagem principal a morrer na série, após tentar fazer contato pelo rádio do avião nigeriano que fora usado por Mr. Ecko anos antes de eles terem ido parar na ilha.

Filosofia: Thomas Carlyle nasceu na Escócia no final do século XVIII, e foi um dos pensadores que influenciaram no desenvolvimento do Socialismo. Para ele, a história poderia ser interpretada através da vida de seus grandes líderes e heróis, o que lhe rendeu vários livros. Suas obras são um grande marco na historiografia romântica.

Correlação: Boone sempre quis ser um herói. Isso fica bastante claro nos primeiros episódios, onde ele tenta dar uma de líder mas, obviamente, não consegue, sendo sobrepujado por Jack, um líder nato. Sua morte se dá por esses termos, quando ele tenta fazer contato no rádio do avião, mesmo com a iminência deste despencar do local onde estava.





Jean-Jacques Rousseau


Lost: Danielle Rousseau é uma francesa que já está na ilha há 16 anos, presumivelmente após um acidente com seu grupo de pesquisa. Pouco se sabe da vida dela, quer seja antes ou após ter ido parar lá. Vive na floresta, sozinha. Teve uma filha, Alex, que foi criada (provavelmente roubada) por Ben, e só foi reencontrá-la no final da 3ª temporada. Morre uma temporada depois, mas é esperado que os mistérios que rondam a sua vida sejam revelados nas duas últimas temporadas da série.

Filosofia: Jean-Jacques Rousseau, filósofo do século XVIII, nasceu em Genebra, Suíça. É um dos pais do Iluminismo francês, juntamente com Voltaire. Sua maior contribuição está na política, onde defende a idéia de contratualismo, que diz que os homens, nos primórdios, fizeram um acordo inconsciente entre si, chamado de Contrato Social, para poderem superar as dificuldades da vida natural e viver em sociedade. Defendia que o homem em seu estado de natureza é bom e puro (conceito do Bom Selvagem), e a vida em sociedade é o que lhe corrompe. Mas como esta é inevitável, diz que todos devem ter uma educação que possa ensinar como viver o mais próximo possível desse estado puro do passado. Por isso, a educação é a segunda área em que ele mais contribui com seus pensamentos.

Correlação: Provavelmente, aqui é que vemos a relação mais explícita na série entre o personagem e o filósofo que lhe emprestou o nome. Danielle demonstra ser uma pessoa muito ética, e ajuda os sobreviventes sempre que estão em apuros. Vive há muito tempo sozinha, na floresta, e isso parece tê-la levado a desenvolver novamente a pureza e bondade de que Rousseau, o filósofo, falava.

Anthony Ashley-Cooper


Lost: Anthony Cooper é um golpista norte-americano, pai de John Locke. O que sabemos de sua vida é que ele já utilizou muitos nomes e deu muitos golpes em mulheres, inclusive a mãe de Sawyer. Revela ser pai de Locke quando precisa de um transplante de rins, e some logo em seguida, o que acaba por se caracterizar como mais um golpe para obter aquilo que precisava. Após isso, passa a ser perseguido pelo filho quando tenta aplicar mais um golpe, e acaba atirando-o do 8º andar, deixando-o paraplégico. É levado para ilha por Ben, para ser o “teste” de Locke quando este decide de juntar aos Outros. É morto por Sawyer.

Filosofia: Anthony Ashley-Cooper, político inglês do século XVII, foi uma espécie de pai adotivo e mentor do filósofo John Locke, ajudando-o a elaborar a sua filosofia. Acredita-se que foi salvo por Locke de uma infecção no fígado.

Correlação: Óbvias. A grande diferença, claro, é que ambos os filósofos mantiveram uma relação saudável até o final de suas vidas.




Mikhail Bakunin


Lost: É um ex-soldado da extinta União Soviética, que atende a um anúncio de jornal após deixar o exército, e acaba sendo levado para a ilha. Ajuda Ben na operação que mata todos os membros da Iniciativa DHARMA com um gás letal e, após isso, fica responsável pela Chama, a estação de comunicação da ilha. É ele quem recolhe todas as fichas pessoas de cada passageiro do vôo da Oceanic. Morre numa missão, ao explodir em suas próprias mãos uma granada, acontecimento que irá acabar com a morte de Charlie.

Filosofia: Mikhail Bakunin, pensador do século XIX, é o pai do anarquismo político. Era de uma família muito rica, e decidiu largar toda a fortuna para lutar pelos seus ideais. Não acreditava em Deus e nem na liberdade humana. Foi um forte crítico de Marx, pois afirmava que se o proletariado subisse ao poder, viraria uma ditadura do proletário, visto que o poder iria corrompê-los.

Correlação: Nenhuma, pelo menos até onde posso enxergar. O personagem, apesar de escolher viver solitário, é muito leal aos Outros, e seria inadmissível ao filósofo russo a submissão à qualquer tipo de poder político.





Edmund Burke


Lost: Ex-marido de Juliet, era chefe dela no Laboratório de Pesquisas Médicas da Universidade Central de Miami‎. Nas poucas vezes que aparece, se mostra bastante petulante e ainda com poder de controlar sua ex-esposa. Morre, atropelado por um ônibus, quando tentava convencer Juliet à contar para o mundo o sucesso que obteve no tratamento experimental que fez sua irmã, com câncer, ficar grávida.

Filosofia: Edmund Burke, advogado e político irlandês do século XVIII, é um dos fundadores do conservadorismo anglo-americano. Defendeu a democracia representativa, e criticou a Revolução Francesa, ao passo que apoiou a Americana. Também criticou bastante a política inglesa na Índia. Era liberalista e contratualista.

Correlação: Como o personagem praticamente não aparece na série, fica difícil fazer qualquer tipo de ligação entre ambos.

6 comentários:

Felipe Camargo disse...

Tem o Faraday Também!!

[deaba] disse...

Sim... mas é que o Faraday é físico, não filósofo... Por isso não coloquei

Felipe Camargo disse...

Aline, no terceiro episódio da quinta temporada aparece uam família Spencer, agora não sei se foi intencional ( Associação com Herbert Spencer) ou pura coincidência...

mauricio disse...

Muito obrigado pelo texto!

Me ajudou muito

Mupex disse...

e o Jacob???
não seria a representação do filósofo Jakob Boehme ????

Dedinha Ramos disse...

Adorei, estou pesquisando sobre isso, obrigada.