05 abril 2009

PENA NÃO SER BURRO?


Gregori Perelman, o homem mais inteligente e talvez o mais solitário do mundo.


Navegando por alguns blogs, deparei-me com a história de Gregori Perelman, considerado o homem mais inteligente do mundo. O matemático russo conseguiu resolver a enigmática conjectura de Poincaré, um dos mais complexos problemas matemáticos, que perdurava desde 1904. Contudo, o mais interessante foi sua atitude em relação a este eminente feito. O russo simplesmente recusou o prêmio Fields (considerado pro muitos o Nobel da matemática) e também o prêmio de um milhão de dólares pelo milionário americano Landon Clay, atribuído àqueles que resolvem teoremas de complexa solução. Perelman também se recusou a ceder entrevistas e publicou seu triunfo matemático em um simples site da Internet e em uma das raras exposições de seu pensamento, o matemático disse que a solução do problema era o que realmente importava e desde então relatos mostram que vive em uma humilde casa com sua mamãe, envolto a crises existenciais.
Este estranho matemático fez com que uma indagação submergisse das minhas mais profundas camadas cerebrais: Porque homens habituados a pensar sofrem e parecem anormais perante o resto do mundo?
Ao decidir fazer Filosofia, tive consciência de que entraria em um caminho sem volta (a famosa pílula azul de Matrix), e percebi realmente que deveria estar preparado para olhar as coisas de um modo totalmente averso e com ceticismo extremamente crítico, uma atitude que me deixaria em exímia solidão mesmo diante de uma multidão de pessoas. No passar destes quatro anos, percebi (não só em mim, mas em muitos amigos) o impacto do pensamento em nossas vidas e a crise que advém das indagações próprias da Filosofia.

Nos últimos séculos, muitos filósofos, cientistas e escritores relataram ao mundo a crise pelas quais passaram, diante de um mundo vazio, sem sentido e não receptivo. Hermann Hesse em seu livro Lobo da estepe conta a história Harry Haller, um intelectual que relata de forma agonística sua solidão e o pesado fardo que é o pensamento, adjunto das dificuldades de ter uma vida normal como os outros. Nietzsche, em seu Anticristo, relata que homens como ele, nascem póstumos e que só seria entendido pelas gerações do porvir, ou seja, mais um incompreendido. Deleuze, só deixou uma entrevista sua ir ao ar depois de sua morte. John Nash, Albert Einstein, Van Gogh, Antonin Artaud, Ludwig Wittgenstein e muitos outros, são alguns exemplos de pessoas que habituaram a sua solidão por serem mal compreendidos.
Ao pensar, o homem esteia um fardo pesado e complexo, vê significados ocultos onde os outros nada enxergam, transcende as barreiras da racionalidade como um esquizofrênico transcende as barreiras da lucidez. A vida se torna algo rizomático, caótico, onde as maiores verdades e convicções parecem extremamente fúteis, a felicidade torna-se impossível e a alegria dos outros cria repugnação, parece ser banal e tediosa, ou seja, o sistema consiste em pessoas presas nos fundos das cavernas da existência, onde a felicidade é uma resignação que oculta o medo da realidade¹.
Raul Seixas, outro gênio que sofreu com o fardo do pensamento, cunhou a seguinte frase: “Pena não ser burro, não sofreria tanto”. Analisando esta premissa me coloco em questão; trocaria tudo que eu aprendi e minha visão de mundo pela pílula vermelha? Respondo negativamente a esta indagação. Não trocaria o que aprendi e a angústia libertadora pela pílula vermelha, até porque, minhas crises existenciais são extremamente necessárias, um sinal que estou aprendendo a "lição correta", onde o filosofar se torna um ato de subversão de valores, verdades, pontos de vista, ou seja, é você olhar para o mundo não se contentando com tudo que é transmitido, um ato de autonomia e maturação crítica, uma batalha consigo e com o mundo que o rodeia.
Bertrand Russell em seu decálogo expõe como última tese: “Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.”, apesar de não gostar de códigos deontológicos, penso que esta frase se encaixa a muitos daqueles que tem crises em relação as suas percepções e divergências com os demais. Não ser mais um tolo, that´s a question!
Não existem verdades e sim pontos de vista, este blog tem como lema esta frase. É notável que para muitos no decorrer destes textos só vomitei sofismas, alucinações ou coisas ininteligíveis, mas venho ratificar que escrever é uma forma expelir as flatulências psíquicas que me atormentam e causam mal estar. Por isso não se atormente com a desconstrução do caos, caia nela e banhem-se os neurônios!

1- Vide Platão, A república.

8 comentários:

[deaba] disse...

Eu ainda estou com sérias dúvidas a respeito das pílulas... Acho que eu deveria ter vicado com a azul. O problema está na consciência. Se você é ignorante, não tem consciência disso. Se não é, tem consciência da sua limitação. Você não deixa de ser ignorante, só tem consciência da sua ignorância. A limitação humana é a mesma para todos. É aí que está o "x" da questão...

Picco disse...

O problema é que você não consegue que pessoas tolas te entendam, por mais que tente elas não tem o conhecimento que você tem e é por isso que Gregori é um cara solitário, ir à meios de comunicação só fará com que ele fique mais infeliz ao tentar explicar coisas que a grande maioria não compreende, resumindo, para ele uma grande perda de tempo.

"A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais."
Arthur Schopenhauer

Bianca disse...

A consciência do "ser-inteligente" faz com que o sujeito se isole,e não ache no próximo um complemento.

Paz&Luz.

Felipe Camargo disse...

"A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais."

BACANA!!

Renato de Faria disse...

Ao ler esse post, senti como se estivesse lendo meu perfil, biografia, sei la... ser burro pode ser mais facil, mas tb nao abro mao do inferno de pensar freneticamente, 24 horas por dia...

bem bacana esse post!

silvio disse...

Muito profundas as tuas reflexões, meu caro Felipe...
os que se achegam à filosofia, buscam o que?? talvez um oásis... uma paragem onde possam molhar a garganta seca e ter um minuto de paz diante do imenso e desanimador deserto seco que os cerca pelo resto de suas jornadas...
uma das coisas que aprendi nesta vida: nascemos sós, vivemos e morremos sós... nem mesmo um fragmento de pensamento e emoção podem ser compartilhados...
e mesmo assim encontramos essa sensação de identidade com a dor do mundo...

PS: gostei da metáfora que vc usou: "expelir as flatulências psíquicas... que causam mal estar..."

Semente Corporativa: disse...

É meu caro, entrar para a filosofia é entrar para um caminho sem volta, vemos e vivemos num mundo diferente das demais pessoas.
Como diria Montaigne: "Ensinar os homens a morrer é ensiná-los a viver."

Hélio.

http://sementecorporativa.blogspot.com/

Jonathan disse...

Vivi a procura de respostas para tornar a própria vida melhor, e agora que as tenho, me decepciono ao saber que não poderei melhorar nada.
Não faz diferença se eu souber de tudo ou nada, todos os caminhos encontram-se no mesmo lugar, a morte. Viverei e morrerei igual aos outros homens por assim dizer.

Mas a parte ruim de tudo isso, é não poder mais ser o que era antes.
A inocência morre junto com a felicidade.