19 dezembro 2008

Anarquia e Ética


Como todo adolescente revoltado que se preze, fui defensora do anarquismo como sistema político por muito tempo. E como adulta centrada, e com um nível mínimo de entendimento da política, da sociedade e do próprio homem, percebi que a ideologia que eu defendi por muito tempo é utópica. Isso não me fez cair em crise, mas me fez refletir mais sobre o anarquismo.

Por algum tempo, eu participei de discussões sobre a ideologia com outros anarquistas, e admito que foi decepcionante: a idéia que grupos anarquistas mais ou menos organizados tem é completamente distorcida e hipócrita - ouvia frases do tipo "vamos tomar o governo e obrigar (?) as pessoas à serem anarquistas!". Pensava eu com os meus botões "mas como raios alguém que defende a liberdade quer obrigar o outro a ser... livre?". Foi assim que eu notei que ideologias como o anarquismo e o comunismo, que dependem diretamente da adesão total das pessoas de um país, são utópicas. Afinal de contas, nunca ninguém irá concordar 100% no que quer que seja, o que seria indispensável e o combustível de sistemas cooperativos. Sempre haverá aquele que vai querer tirar vantagem em algum lugar, ou que vai naturalmente liderar certo grupo, ou que simplesmente achará melhor que a responsabilidade administrativa do que quer que seja fique na mão de alguém, menos na dele. Ou seja, são sistemas fadados ao fracasso, quer eu goste disso, quer não.

E não adianta falar que "se o homem evoluir, eles serão possíveis". Não serão. Primeiro que evolução, em termo biológico, não significa "mudar para a melhor", visto que o juízo de valor não está na natureza, mas no homem. Evoluir significa adaptar-se melhor ao ambiente em que se vive, de modo que a "raiz" da espécie, digamos assim, perpetue. Segundo que, por definição, se o homem perder suas característas vistas como ruins, ele deixará de ser homem - será uma raça qualquer, mas não homem. Nossos defeitos fazem parte de nós, e são fatores que ajudam a nos definir enquanto humanos (Quem assistiu o episódio "Jerry was a man", de Masters os Sci-Fi terá uma idéia do que eu estou falando). Assim, de uma forma ou de outra, o anarquismo não é possível para a humanidade.

Mas, mesmo com todas essas objeções, eu não consegui deixar o anarquismo pra lá. Passei a ver o anarquismo não como um sistema político, mas como um sistema ético. E não um sistema ético universal, mas pessoal. Fiz do anarquismo o meu próprio sistema ético (que tento seguir, como qualquer ser humano falho, aos trancos e barrancos).

O anarquismo sustenta-se em três pilares principais: liberdade, igualdade e auto-gestão. O homem é absolutamente livre e pode fazer o que quiser, desde que isso não interfira na vida/liberdade do outro. Todos são iguais e têm os mesmos direitos e deveres, independentemente de cor, raça, crença, time de futebol e novela preferidos. E, seu principal pilar político, o homem tem a capacidade e o direito de se auto-governar, sem ter ninguém para lhe dizer o que fazer, ou controlar a sua vida de qualquer forma que seja.

Em meu sistema anarco-ético, os dois primeiros itens (liberdade e igualdade) permanecem praticamente inalterados, apesar da minha ressalva quanto à liberdade (não acredito nela, e penso que deveríamos encontrar uma nova palavra pra determinar aquilo que entendemos como sendo liberdade). A diferença, naturalmente, se dá na auto-gestão: ao invés de ser um ponto político, passa a ser um ponto mais ético, mesmo que com uma dependência direta com a política atual, e que vai influenciar diretamente com os dois primeiros pontos.

Eu vejo a auto-gestão como a capacidade, e o direito, que um ser humano tem de ter as rédeas de sua própria vida pessoal. E digo isso no sentido de ter uma educação suficientemente boa para ter uma noção clara e crítica do mundo que o cerca, o direito de ter os fatos claros , e não manipulados, sobre tudo aquilo que acontece no mundo (afinal de contas, vivemos ou não vivemos em uma democracia?), o direito de ter um corpo são, com um bom sistema de saúde, um salário digno que realmente o sustente e lhe dê a estrutura econômica necessária para manter corpo e mente sãos, enfim... O poder de realmente ser dono de sua vida pessoal, com todos aqueles fatores necessários para que isso aconteça desenvolvidos, de forma que venham a fazê-lo consciente disso, e o permitam ser livre (sem interferir na liberdade alheia) e ser/enxergar o outro como um igual. Um sistema imperfeito, é claro, mas que alimenta-se a si mesmo; e que, ao começar (com a auto-gestão sendo realmente possível), começará a andar por suas próprias pernas, pois penso que uma vez adquirida certa consciência, não é possível voltar atrás, e a falta de eticidade torna-se menor (não impossível, frise-se), pois o modo de ver e agir diante do mundo será completamente mudado.

Nada de novo, eu sei. Só uma adaptação pessoal para eu poder dizer que continuo anarquista. =]

4 comentários:

Felipe Camargo disse...

Muito bom o texto...
É bom recapitular que outro aelemento do anarquismo muito importante é a ação direta; e o que mais me fascina é que o anarquismo é a doutrina mais crítica da contempóraneidade. Não é a toa que tantos intelectuais utilizam tais principios: Chomsky, Foucault, Deleuze...

Rafael da Costa disse...

Ótimo, você e o Felipe são bons.
Pronto, o blog está entre os meus favoritos, li 4 textos mesmo sento um cara que tem dificuldade pra leitura e estando com muito sono.

Muito boa sua opinião, sua adaptação e a lucidez para não seprender à antigas filosofias e se tornar um tremendo idiota tentando fazer uma revolução. Isso, como um jovem em 2008 que quer derrubar o poder e fazê-lo comunista, é, na minha opinião, patético.

Assisti a uma palestra de Zuenir Ventura, e fiz uma pergunta tratando disso, que trato como patético. Ele me respondeu de forma interessante, ao ressaltar que agora, com o mundo já formado e consolidado, devemos aproveitar a democracia. DEMOOOOcracia. Certíssimo, né?

Só uma dúvida: essa sua forma de rever o "anarquismo" me pareceu meio contraditória... Auto gestão é reger sua vida com as próprias mãos! Além disso, ter possibilidade de viver bem, com saúde integra, com sistema de saúde etc... Pô, mas aí não é auto-gestão, se houver um impecável sistema de saúde, não será auto-gestão e haverá influência do "poder" na sua vida dita livre. Mas entendi o que quis dizer, não é fácil adaptar essa filosofia, por isso quis mudar um pouco o conceito de auto-gestão... Mas fica minha crítica, não no intuito de achar algo errado e "te peguei, trouxa!", mas no intuito decooperar para que na sua cabeça, sua filosofia de vida seja integra e organizada. Acho importante a pessoa ter uma filosofia de vida organizada, para não ser hipócrita e viver mais sem sentido do que o mundo já o é.

Abração, obrigado pelo bom texto.
Rafael da Costa.

Outsider disse...

Fico contente por ler isso.
Para se descentralizar o poder é necessário centralizá-lo em outro lugar. Sendo assim, a ideia do Anarquismo torna-se autofágica.

[deaba] disse...

Rafael: De fato é contraditório, mas se levarmos em conta apenas a questão linguistica. Porque, empiricamente, não há como separar o individual do social. Assim, a auto-gestão pessoal dependerá sempre de fatores externos e sociais, como os que cito no texto. Ambos os meios estão interligados, conectados e indissociados. Eu entendi a sua colocação, e ela não está errada, está apenas ambientada dentro da linguagem/linguistica. Agora, se você considerar a limitação da linguagem em relação aos acontecimentos empíricos, muita coisa dentro de sua visão do mundo irá mudar, e esse é um processo muito interessante... Se puder, leia o livro Significado e Verdade do Bertrand Russel, ele trata desta questão. Tem também A Palavra e as Coisas, do Foucault.

Abraços, e obrigada pela visita, pela leitura, pelos comentários e pelos argumentos. É sempre bom discutir idéias!