22 novembro 2008

Ter e Ser




A questão entre ter ou ser desencadeou discussões interessantes, especialmente da modernidade em diante. Antes da revolução científica dos modernos, era muito claro, ao menos filosoficamente, que ser importava muito mais do que ter, visto que a vida humana na Terra era considerada uma mera passagem sem importância, pois o que realmente importava era o além mundo, quer seja o Hiperurânio de Platão, quer seja o Paraíso dos cristãos medievais.

Mas, na renascença, o problema começa a surgir, pois de transcendente a vida do homem, e tudo aquilo que lhe implica, passa a ter caráter imanente. O avanço das ciências naturais e a decadência da Igreja contribuem para o nascimento dessa nova visão de mundo. Mas não só isso. Para Gerd Bornheim, o que ele denomina de “projeto burguês” teve também a sua contribuição para esse fato, ao dar ênfase a certos aspectos que culminaram com o consumismo capitalista que vemos hoje.

Para Bornheim o projeto burguês se caracteriza em 7 aspectos principais:

  • A autonomia do sujeito;
  • A valorização do trabalho;
  • Defesa da propriedade privada;
  • A formação do capitalismo, e o dinheiro promovido à fim em si mesmo;
  • O conhecimento humano como uma forma de poder;
  • A liberdade, ficando o homem como senhor de si mesmo;
  • O contrato social, e a norma transformando-se em convenção social.

Por essas características destacadas, podemos notar que todas elas servem para fundamentar e suportar a ascensão econômica burguesa, que precisava de homens não tão ligados com fatores espirituais, desprezadores do corpo e da matéria, para poderem vender seus produtos e fazer o capitalismo progredir. Nas palavras do autor: “Percebe-se que tudo é feito para alicerçar de maneira mais sólida possível a autonomia do homem burguês”. É aí, então, que soma-se ao cenário o ateísmo e o individualismo.

A questão já toma corpo com o nominalismo, na Idade Média, especialmente com Guilherme de Ockham (1280/90-1349), onde “a perspectiva começa a inverter-se e passa ser possível afirmar que a existência precede a essência, pois o que conta agora é realmente o indivíduo concreto”. O indivíduo toma o lugar do divino, o imanente toma o lugar do transcendente. E temos então aquilo que chamamos de materialismo, a doutrina que acredita apenas na existência do que é físico, material, descartando qualquer coisa que tenha referências metafísicas.

É claro que, na dicotomia ter e ser, estamos falando de um materialismo específico que, querendo ou não, nasce ou acentua-se à partir do projeto burguês citado por Bornheim. É o materialismo econômico, estudado por Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920), entre outros, onde a ênfase é dada às posses materiais, e não à qualquer outra coisa. O materialismo econômico vai encontrar grande campo para semear-se na América do Norte, especialmente após William James (1842-1910) teorizar a corrente pragmática, cujas maiores influências abateu-se exatamente sobre a economia.

E com o desenvolvimento do próprio capitalismo selvagem, do neo-liberalismo e das ciências naturais, colocando o homem no centro de tudo, a contemporaneidade passa a ser terreno cada vez mais fértil para o enraizamento do materialismo econômico. Com essa postura econômica, consequentemente outro fenômeno acontece:

"O pós-modernismo faz a opção pela contingência. E, com ela, opta pelo fragmentado, efêmero, volátil, fugaz, pelo acidental e pelo descentrado, pelo presente sem passado e sem futuro, pelos micropoderes, microdesejos, microtextos, pelos signos sem significação que se torna, assim, a definição e o modo da liberdade."
(Marilena Chauí)

Assim, vivemos numa sociedade materialista economicamente (com os outros tipos materialismos estando ligados, necessariamente, à este), onde tudo virou um produto descartável, onde o que vende mais hoje, amanhã já não tem nenhum valor; onde o ser deixa de ser importante, pois denota um centro, um norte, um ponto fixo, que não mais vigora em nosso pensamento.




Referência:


NOVAES, A. (Org). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



Aline Silva

que prefere ser

2 comentários:

Roberto Fernandes disse...

Muito bom! Visão ampla, histórica, fundamentada, com argumentos lógicos.

Roberto Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.