11 setembro 2009

A imortalidade e o fim do humano


“Todos almejamos a imortalidade, é nossa fantasia final”. Essa premissa é levantada pelo sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard no primeiro capítulo de seu livro “A ilusão vital”. O pensador, como um bom pós-moderno, critica pesadamente os devaneios do homem contemporâneo e a pretensão de tornar-se Deus.
No início de seu livro, o escritor de Simulacros e simulações, salienta a idéia de que a clonagem em uma perspectiva analítico-reflexiva não passa de um profundo desejo humano de alcançar a imortalidade e romper as barreiras naturais da vida. O homem pode então se desenvolver como uma célula, criando-se a partir de si próprio e disseminando sua existência. Contudo, quando a célula começa a se duplicar incessantemente esquece a morte, produzindo milhares de cópias de si própria ocasionando o aparecimento de tumores, que podem levar o organismo a morte. Analogamente, o homem ao tentar se duplicar porta-se como a célula que teleologicamente atinge sua destruição.
Para Baudrillard, os primeiros seres vivos eram imortais, pois copiavam-se incessantemente eliminando a alteridade e a diferença, ou seja, até então a homogeneidade reinava na atmosfera terrestre. Contudo, aconteceu a autêntica revolução sexual na história: A união da dualidade de seres iniciando novos seres, o que em outras palavras quer dizer o fim da unicidade homogênea. A natureza achará na morte e na união de dois seres diferentes o caminho para um mundo diversificado e aberto à alteridade.
Se a heterogeneidade é o caminho para a criação e evolução, porque o homem sonha com clones homogêneos? Jean Baudrillard tenta responder essa questão com um argumento freudiano, a pulsão pela destruição (Thanathos). O homem não se agüenta como o centro do Universo e procura através da artificialidade uma volta ao passado homogêneo, a convicção em se duplicar disfarça a pulsão de aniquilação do próprio ser humano, esta que se torna evidente a partir do aparecimento de vírus e bactérias super-resistentes.
O pensamento baudrillardiano em relação ao homem que procura seu duplo, remete a história que Saramago cria em seu belo livro O homem duplicado, onde um homem ao encontrar um ator idêntico a si próprio, começa a viver um inferno existencial, culminando em situações destrutivas e escatológicas.
O homem contemporâneo vê na técnica uma forma de superar e abolir a humanidade, não no sentido proposto por Nietzsche, que procura uma afirmação, mas no sentido negativo, de fugir e destruir os preceitos demasiadamente humanos. Em outras palavras, o homem se oculta em um abismo técnico e esterilizado pela ciência, tanto que a definição do homem na atualidade não são os valores axiológicos e ontológicos de outrora, mas sim a estrutura genética.*
As experiências com a reprodução homogênea de seres humanos não são mais do que reflexos de uma monocultura e de um monopensamento consolidados principalmente no século XX, onde o diferente torna-se nocivo e prejudicial e tem de ser abolido de qualquer forma. A clonagem cultural e mental, instaurada pelos tentáculos do sistema (escola, mass media, prisões, hospitais, etc.) antecedem a clonagem biológica.
Na perspectiva de Jean Baudrillard, é preciso se abrir para o diferente e rever a situação humana, não por uma questão de bem ou mal, mas sim por uma questão de sobrevivência da espécie humana, pois a mesma já se encontra em metástase.

*Baudrillard ironiza a definição genética:"Compartilhamos 98% dos genes com gorilas e 90% deles com ratos. Baseado nessa herança comum, que direitos devem reverter para gorilas e ratos?"

2 comentários:

Sil Drabeski disse...

Acho que vou ler mais Baudrillard!

Andre Whittick Nasser disse...

Adoro esse livro dele, são as três palestras que ele deu.

Esse texto é realmente fantástico.