09 julho 2009

Os Numeratis e a disseminação sutil do poder




Michel Foucault foi um dos grandes filósofos do século XX, em sua rica obra podemos destacar a preocupação de Foucault com o poder e sua força no campo de aplicação. Para ser mais preciso, no livro História da sexualidade: A vontade de saber é onde Foucault conceitua o poder contemporâneo ou o Biopoder. Como o nome já diz, é caracterizado pelo controle em relação à vida do indivíduo: Natalidade, sexualidade, etc. Mas o que mais me chamou a atenção nessa obra é um termo que o filósofo francês caracteriza o poder contemporâneo: A sutilidade.
Aprecio muito esse ponto de vista foucaultiano, principalmente após ler uma reportagem e um livro sobre a nova ciência de controle: A ciência dos Numeratis.
Como observei no último parágrafo, essa ciência tem como objetivo o controle social nos mais diversos campos (trabalho, Internet, política, consumo, saúde e até no amor). O método consiste em uma elaborada análise da vida do indivíduo, transformada em equações, traçando paralelos e previsões para guiar o comportamento de cada um.
Ilustrarei essa ciência com alguns exemplos:
• Trabalho: A IBM andou bisbilhotando a vida de cerca de 50 mil funcionários, e bem ao pé da letra. Currículos, projetos, anotações em agendas on line, e-mails e até idas ao banheiro foram transformados em gráficos e equações, cujo objetivo é comparar a produtividade a um funcionário virtual. Quem não se adequar aos padrões minuciosos estabelecidos ganhará certamente o olho da rua. E o pior é que diversas empresas mostram interesse no projeto.
• Internet: Sabe aqueles comentários que você deixa em Blogs e Fotologs pela Net? Podem estar na mira de supercomputadores que definem você pelos seus comentários e até pelo seu modo de escrita (o computador identifica naum ao invés de não, pode deduzir que uma pessoa jovem está nos teclados), através dessas técnicas, os numeratis visam descobrir suas opiniões sobre produtos com o fim de oferecer um produto bom e para a pessoa certa.
• Política: Nos EUA, os Numeratis desvendam a vida das pessoas para identificar a identificação partidária, na busca de mais votos. Filiação, bairro, profissão, valores e centenas de dados são computados. Joseph Gotbaum, um dos maiores especialistas na ciência dos números foi o grande responsável pelo marketing da campanha de Barack Obama rumo à presidência.
• Consumo: Através do registro de suas comprar, os mercados analisaram os produtos que mais consome e proporcionará promoções específicas para você.
• Amor – Através de cálculos referentes a hormônios predominantes nas pessoas, as mirabolantes equações proporcionam a combinação com o par perfeito. O MSN paquera já utiliza a tecnologia, faça o teste!
• Saúde – O monitoramento diário levará aos Numeratis todos seus movimentos na tentativa de prever um doença degenerativa, como o mal de Parkinson.
Apesar de ter alguns pontos positivos, como a prevenção de doenças, a ciência dos Numeratis vem salientar a sutilidade que o poder contemporâneo é exercido, somos comparados, calculados e vigiados, como máquinas na busca de um desempenho cada vez mais satisfatório e isso sem saber, ou simplesmente por desejar. O poder ganha um novo status, muito mais sutil que o Biopoder de Foucault, ele chega ao status de um tecnopoder, onde a tecnologia coisifica e padroniza o homem a mercê da ideologia consumista de nossa sociedade. Vivemos a beira da sociedade de controle que profetas como Orwell e Huxley já haviam previsto no passado. Só falta tais tecnologias de controle estarem nas mãos de um governo ditador, ai sim a merda federá de vez!
Como escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente.”

Leituras recomendadas:
Baker,S. Numerati. ARX
Foucault, M. História da sexualidade: A vontade de saber.

Um comentário:

Lethicia Vargas disse...

Olá...considero seu texto muito pertinente e rico! Fico agora pensando que cada letra que incluo pode ser um argumento a favor do controle de 'mim'!!!!
Tecnopoder, um modo sutil de controle, mais elaborado em decorrência do 'progresso' mas que em linhas gerais se dá como o biopoder de Foucault.
Ele começa o primeiro capítulo de 'História da Sexualidade: a vontade de saber' afirmando que ainda hoje nos sujeitaríamos ao regime vitoriano...ainda somos os mesmos, com poucas diferenças.