29 maio 2009

Literatura e Filosofia: O alienista e a crítica ao cientificismo




Os livros de literatura estão incluídos entre as minhas maiores paixões e costumo dizer que a literatura é uma forma esteticamente bela e leve de fazer filosofia, isso sem perder a profundidade presente nos maiores filósofos. Por isso resolvi iniciar um projeto de extrair e comparar histórias com idéias filosóficas. O primeiro livro a ser escolhido é O alienista de Machado de Assis.

Desde criança manifestei uma inclinação a buscar nos livros algum conforto ou até mesmo entretenimento para escapar das emblemáticas situações mundanas, mas com o tempo as exigências pragmáticas e principalmente escolares (algo bastante curioso) fizeram com que se eximisse meu gosto pela literatura e que criasse alguns preconceitos, destinados principalmente àqueles livros referências para o vestibular. Infelizmente depois de ser obrigado a ler Escrava Isaura, Primo Basílio e a decorar os sonetos de Camões tornei-me antipático perante “os clássicos dos vestibulares”. Machado de Assis foi um dos escritores que guardei certo rancor, tudo devido à ditadura e a falta de preparação advinda de aulas de literatura mal fundamentadas.
Mas o mundo é um constante devir e a cada momento que passa nos transformamos é o que já afirmava o filósofo Heráclito de Éfeso, e com o tempo veio minha formação filosófica e aos poucos fui mudando meus pontos de vista, principalmente em relação ao maior escritor tupiniquim: o grande Machadinho. Para me redimir de tal heresia e para dar cabo a este projeto de unir filosofia com literatura, decidi escolher e homenagear nosso escritor majoritário.


O alienista é um conto elaborado no ano de 1882 é considerado uma das primeiras obras realistas compostas no Brasil. Seu enredo tem como tema a vila de Itaguaí, onde o ilustre Doutor Simão Bacamarte, dono de um nobre espírito cientificista, referência médica em Portugal, na Espanha e no Brasil, decidiu em nome da ciência realizar experiências visando à descoberta do tratamento contra a loucura. Em sua famosa Casa Verde, decidi tratar os diferentes tipos de loucura. Primeiramente são relatados casos curiosos como o jovem Falcão que acreditava ser uma estrela d’alva que se abria de acordo coma posição do sol. Mas no decorrer da obra o médico apoiado no aval da ciência, decidi internar todos aqueles que apresentam comportamento fora do padrão racional, o que faz com a maior parte da cidade seja internada na casa de orates. A trama histórica desenvolvida por Machado é recheada de tentativas revolucionárias e contradições que desencadeiam a um resultado inusitado e até mesmo hilário.
Ao ler essa obra, não pude deixar de fazer certas analogias com algumas idéias e fatos.
Primeiramente está explicito no texto uma comparação com a revolução francesa, onde uma elite é expulsa do poder por um regime popular (revolução propagada pelos Jacobinos, onde o Rei Luis XVI perdeu sua cabeça na guilhotina), contudo esse regime é permeado por brigas, e logo depois o governo centrado é retomado novamente (a centralização do poder nas mãos de Napoleão).
Mas o que mais me interessou neste conto foi à crítica de Machado de Assis ao cientificismo. Sabemos que Machado foi contemporâneo a uma época extremamente otimista em relação à ciência. O positivismo de August Comte era a filosofia em voga e via na ciência uma forma de controlar e ordenar o mundo. Satiricamente o Doutor Bacamarte é o expoente maior do homem positivo, um homem que não se rende as paixões, frio e calculista, onde seu principal objetivo é clarear as profundezas da insanidade com as luzes da razão. Machado brinca com o objetivismo exacerbado do doutor:

“Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou se de semelhante escolha e disse lho. Simão Bacamarte explicou lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, - únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá lo, agradecia o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.”

Como podemos notar o doutor demonstra objetivismo até para se casar, contudo, sua teoria vai por água abaixo quando descobre que sua companheira é estéril. Algo curioso que pode ser comparado ao pensador que de tanto contemplar o céu acaba tropeçando nas pedras do chão.
Também podemos ver explicitamente neste conto, a crítica levantada pro Foucault em sua bibliografia, onde o louco nos ditames da razão é considerado como um doente, alguém que precisa ser recluso e tratado, pois esse perdeu a condição que o tornava humano. A Casa Verde é um retrato do panóptipo exposto no livro “Vigiar e Punir”, onde os anormais são observados por um poder centralizado, com fim de retificá-los sob o olhar da disciplina.
Outro paralelo que não pude deixar de construir ao me deliciar com essa leitura, foi com a obra Dialética do esclarecimento de Adorno e Horkheimer. Neste importante compêndio de idéias, os filósofos vêm enfatizar o quanto à ciência se tornou instrumental e o poder irracional que emana de sua elucidação. Ao longo da história, obcecado pelo ideal do expurgo do insano, o Doutor Bacamarte acaba internando seus melhores amigos e inclusive sua esposa por atos banais (como a indecisão em relação à escolha de um colar). Fato que ilustra a teoria dos filósofos alemães que pregam que o domínio da razão se tornou algo extremamente irracional (que o diga movimentos como o fascismo). E o pior de tudo que tanto no conto quanto na vida real, por ser algo extremamente concordante com a razão, as pessoas aceitam as premissas científicas sem nenhuma avaliação crítica sobre os impactos e fundamentos éticos que as permeiam.
Porém o mais importante na crítica do escritor carioca é que não se deve elevar a razão cientificista a um patamar absoluto, pois pode ser tão nociva quanto à irracionalidade absoluta. E o mais engraçado é que no século passado presenciamos situações em que vimos à racionalidade mover milhões de pessoas para atitudes totalmente irracionais e descomunais.
E continuo afirmando... a literatura é uma forma elegante de fazer filosofia!

6 comentários:

*~Gabriela Carvalho~* disse...

Muito interessante seu site!

Felipe Camargo disse...

Obrigado, seja bem vinda!

French Fry disse...

Achei muito interessante a relação que existe entre a filosofia e as artes, que no blog são exemplificadas com o livro O Alienista e com o filme Matrix.Gostaria que vc, se possível,assistisse os filmes 2001: Uma Odisséia no espaço ou 13°Andar para analisá-los filosoficamente e postar algum comentário.

Felipe Camargo disse...

Claro que Sim, O 2001 eu tenho aqui e me prontifico a assistir nesse fim de semana...

Abraços e volte sempre!

Fernando disse...

Parabens pelos texto!
Muito bom

EMMA disse...

o artigo é bom e interessante, so a cor negra do fundo do site é insuportavél, deveria ser fundo branco e escrita negra para ler bem e sin descanso o texto.