11 maio 2008

Análise do livro : O Estrangeiro de Albert Camus

ANÁLISE CONCEITUAL DA OBRA O ESTRANGEIRO DE ALBERT CAMUS

O livro “O estrangeiro” (L´ÉTRANGER), foi publicado no ano de 1942 e é considerado por muitos a grande obra de Albert Camus. Tal romance foi o grande responsável pelo prêmio Nobel que o escritor ganhou no ano de 1957.

Esta obra-prima da literatura contemporânea causou um grande impacto na sociedade ao ser publicada, pois está implícita em seu conteúdo uma visão de cunho existencialista, até porque tal doutrina estava em voga na Europa, principalmente no período pós-guerra. Tal foi à repercussão da obra, que o filósofo e teatrólogo Jean-Paul Sartre a conceituou como uma ilustração da existência humana e que seria interessante conhecer o autor. Esta declaração fez com Camus e Sartre iniciassem uma bela amizade que duraria dez anos, até eles brigarem por questões políticas.

O estrangeiro é uma narração em primeira pessoa do personagem Meursault, um homem que narra friamente sua vida, diante da realidade absurda que é a existência. A história é dividida em dois momentos, porém ao longo do livro o personagem mantém uma posição indiferente e que remonta ao um niilismo e a certa despreocupação com a vida.

A primeira parte da História é caracterizada pela a morte da mãe do personagem principal, que ao relatar o enterro e os personagens da cerimônia, age de forma imperturbável e indiferente, não mostrando nenhum sentimento para com os outros, tais ações relembram as posturas de ataraxia e de apatia, tão comum nas correntes Helênicas do Estoicismo e do Ceticismo.

Hoje, minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames".Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele não me podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito.Cheguei mesmo a dizer-lhe "A culpa não é minha". (CAMUS, A. 2000. p. 01)

Podemos notar no trecho acima uma profunda indiferença do personagem em relação ao falecimento de sua mãe, tal opinião ainda choca muitas pessoas. O niilismo de Meursault corresponde a todo um movimento que ganhava força na Europa: o Existencialismo, principalmente aquele defendido por Sartre. Onde a existência é dotada de absurdo e nada possui um sentido prévio.

Ao longo desta primeira parte do livro, o personagem não emite opiniões e nem paixões, simplesmente adota uma atitude de indiferença, não só com o enterro de sua mãe, mas com sua “namorada” Maria, seu vizinho Raimundo e até mesmo com o assassinato de um árabe, cujo Meursault o matou com cinco tiros após a uma briga.

A segunda parte do livro é baseada no testemunho de Meursault durante sua estadia na prisão e sua visão sobre o julgamento em relação a seu assassinato. Em tal parte do livro, o personagem chega a apresentar alguns traços sentimentais e nostálgicos em relação à Maria e a sua liberdade, porém com o tempo nosso protagonista compreende a falta de sentido e até mesmo de necessidade que é ficar sem prendendo a tais sentimentos e perdendo tempo com isso.

Um fato interessante é que em seu próprio julgamento, Meursault se incomoda tanto com a defesa quanto com a promotoria, pois estes distorcem todo o foco do julgamento e tentam padronizar um sentido para suas ações:

“Quanto a mim, sentia-me atordoado pelo calor e pelo espanto. O presidente tossiu um pouco e, em voz não muito alta, perguntou-me se eu queria acrescentar alguma coisa. Levantei-me e, como tinha vontade de falar, disse, aliás um pouco ao acaso, que não tinha tido intenção de matar o Árabe. O presidente respondeu que era uma afirmação, que até aqui não percebia lá muito bem o meu sistema de defesa e que gostaria, antes de ouvir o meu advogado, que eu especificasse os motivos que inspiraram o meu ato. Redargüi rapidamente, misturando um pouco as palavras e consciente do ridículo, que fora por causa do sol. Houve risos na sala. O meu advogado encolheu os ombros e, logo a seguir, deram-Lhe a palavra. Mas ele declarou que era tarde, que precisava de muito tempo e que pedia o adiamento até logo à tarde. O tribunal concordou.” (CAMUS, A. 2000. p. 71)

Podemos notar claramente que o personagem não vê nenhuma necessidade de mentir ou de fazer uma nova interpretação de seus atos, ele simplesmente fala o que ele pensa indiferentemente daquilo que possa acontecer com ele. Tal atitude para grande maioria das pessoas é no mínimo inusitada, pois o normal em uma ocasião destas seria que a pessoa ao menos tentasse se livrar da culpa ou amenizar sua situação. O que não acontece Meursault.

Outro ponto muito significativo do livro consiste no dialogo conflituoso entre Meursault e uma padre. O sacerdote com o intuito de “ajudar” espiritualmente o prisioneiro que estava condenado à morte, tenta pregar princípios e postulados religiosos para o condenado e este reage com fúria. Pode-se notar o incômodo do protagonista com os dogmas religiosos que sustentam a fé da maioria e os desviam do absurdo e da falta de sentido apriorístico da vida. As idéias de vida póstuma e de Deus são vida com desdém e desconfiança pelo personagem, que mostra claramente que aquilo para ele não tem sentido algum e não pode ajudá-lo. O padre como transmissor de um dogma, tenta evangelizar o condenado, porém este se irrita e o ataca violentamente:

" ‘Não, meu filho, disse ele pondo-me a mão no ombro. Estou ao seu lado, mas não o pode saber, porque o seu coração está cego. Rezarei por si’ – disse o padre. Então, não sei porquê, qualquer coisa rebentou dentro de mim. Pus-me a gritar em altos berros e insultei-o e disse-Lhe para não rezar e que, mesmo que houvesse um Inferno não me importava, pois era melhor ser queimado no fogo do que desaparecer. Agarrara-o pela gola da sotaina. Atirava para cima dele todo o fundo do meu coração com impulsos de alegria e de cólera. Tinha um ar tão confiante, não tinha? Mas nenhuma das suas certezas valia um cabelo de mulher. Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto[...](CAMUS, A. 2000. p. 83).

Nota-se claramente a indignação de Meursault, com a imposição de verdades e de sentidos postulados por outro. Tal idéia é muito freqüente no período contemporâneo onde o homem viu que certeza que duraram séculos foram derrubadas, o que acarreta simplesmente em uma atitude cética perante a realidade e a imposição ideológica.

No final do livro, enfatiza-se a idéia de indiferença perante a vida, na qual tudo é tão desprovido de sentido. Meursault termina dizendo que o único desejo dele é que seu enterro seja composto por uma multidão que o odeie por ser simplesmente indiferente e ter uma outra perspectiva da realidade.

A leitura deste livro faz indagar a importância da subjetividade no decorrer de nossas vidas, até porque o livro narrado em primeira pessoa e apresenta uma visão de mundo que é caracterizada principalmente pelo absurdo que é existir. Meursault não é necessariamente um vilão e sim uma pessoa que não se guia por ideais (nas palavras de Nietzsche ele é um niilista passivo) e que demonstra indiferença e descrença nos valores predominantes da sociedade. Esse é um dos motivos que fez com que O Estrangeiro se tornasse um clássico, pois este reflete uma sociedade que começa a ver o mundo de uma forma diferente do que até então era presenciado.

7 comentários:

Rafael da Costa disse...

Muito bom. Gostei da análise, isso complementou meu entendimento da obra. Acabei de ler e minhas conclusões, mesmo com a ajuda da descrição do livro, estavam bastante vagas... Talvezpor ser um dos poucos livros existenciais e de cunho filosófico que leio. Sou novo na leitura, portanto, é necessário ler análises e ter ajuda de sábios maiores que eu.

Muito obrigado pela visão. Gostei da conclusão: Não existe verdade absoluta, Mersault apenas viveu à sua maneira, sem dogmas pré-definidos. Mas se todos vivessem assim, sem regras e leis, seria uma anarquia. Exatamente! Camus foi um Anarquista! hahaha, bela conclusão. É uma boa visão, não que seja a verdadeira visão, pois não há uma verdadeira visão do livro, nem a do autor.

Abraço, de Rafael da Costa.

jocasta disse...

nossa naum gosto de ler mais fui obrigada por que eu tinha que apresentar esse livro oralmente na minha escola mais eu amei esse livro aconselho a todos lerem mesmo se naum gostarem vejam so eu gostei hehehehe

Rogerio Floripa disse...

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/baabi caires disse...

Mano ta horrível de ler as coisas nesse blog, a letra ta pequena e o branco dissolve no preto atrás. O conteúdo ta bom mas deixa os leitores com dificuldade de ler, isso estraga a composição.

Didi disse...

Em nome dos que tem dificuldade para enxergar, peço melhorar o tamanho da letra e se possível tirar o fundo preto.
A resenha está ótima.

Giovani Souza Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Giovani Souza Santos disse...

Muito boa a analise, a reflexão que nos trás e exatamente, de uma consciência desprovida de influências de Ideologia e cultura preexistente, que sem perceber deixamos entrar e agimos maquinalmente.E é realmente existencial ao extremo. Coloca em pauta o acaso,o erro da compreensão, que é interpretações múltiplas e também insatisfação das regras da sociedade.Realmente a visão nua e crua da realidade.